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Trabalhar para viver ou viver para trabalhar?

 
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É preciso aprender a dividir o tempo entre trabalhar e descansar

Se você prestar atenção no tempo que consegue conversar com seus amigos e familiares sem falar a respeito do trabalho que realiza ou de situações relacionadas a ele, fica fácil perceber se está vivendo para trabalhar ou trabalhando para viver.

A Palavra de Deus, em Eclesiástico 3, afirma que “grande sabedoria é viver bem cada coisa a seu tempo”. Com relação ao trabalho, creio que não é diferente. Precisamos ser bons profissionais, cumprindo com responsabilidade nossa missão, mas também devemos ter o discernimento e a coragem de separar “as coisas”, deixando o que é próprio do trabalho, no seu setor, e levando para casa somente seus bons frutos. E não é que seja proibido falar com quem convivemos a respeito das nossas lutas e vitórias vivenciadas no trabalho, a questão está no equilíbrio com que lidamos com isso.

Na Comunidade Canção Nova, da qual faço parte, vivemos algo que considero interessante nesse sentido. Naturalmente, também nós missionários, quando voltamos para casa, depois de um dia de atividades, temos a tendência de continuar falando a respeito do que vivemos em cada setor da missão. Porém, monsenhor Jonas [fundador da comunidade] nos ensina que, quando agimos assim, é como se não nos desligássemos do trabalho e não conseguíssemos descansar nem viver tantas outras coisas boas que a vida fraterna tem a nos oferecer. Com isso, quando percebemos que o centro de nossas conversas está sendo o trabalho, alguém do grupo deve ter a iniciativa de mudar de assunto até que os demais o acompanhe. É que existe um tempo para cada coisa: “tempo para trabalhar e tempo para descansar”. Se continuarmos, no tempo de descanso, a nos referir ao trabalho, poderemos até ser refeitos no físico, mas a cabeça continuará trabalhando e, consequentemente, virá o degaste geral. Será que não é essa a razão pela qual temos encontrado tantas pessoas cansadas?

Admiro quem trabalha com dedicação e ama o que faz. Eu mesma sinto-me privilegiada por fazer o que gosto, mas uma coisa é certa: preciso estar atenta para separar o que faço do que sou, pois sei que, quando nos identificamos demais com o que fazemos, podemos facilmente nos esquecer de quem somos, e isso é um sério problema.

Se nos esquecermos da nossa real identidade de filhos amados de Deus, passaremos a nos autoidentificar e valorizar por aquilo que fazemos e possuímos, e, muitas vezes, dessa atitude nascerá o desequilíbrio com relação ao “viver para trabalhar”. A pessoa foca seu esforço em ‘ter cada vez mais’, pensa que, aí, está o seu valor, por isso trabalha, cada vez mais, sem nem mesmo perceber que está vivendo cada vez menos.

Muitos de nós já descobrimos que as coisas que realmente valem a pena, nesta vida, não têm preço. Outro dia, li um relato que me fez pensar sobre isso. A história falava de um menino que sentia a falta do pai, pois este estava trabalhando cada vez mais e ficando cada vez menos em casa. O pai pensava estar fazendo o bem para sua família, dando-lhe um melhor “padrão” de vida com sua exigente profissão, mas era um grande engano. O filho mais novo sentia tanto sua falta que, certa noite, quando ele voltara tarde para casa, perguntou-lhe: “Papai, quanto você ganha por hora no trabalho?”. O pai ficou aborrecido com a pergunta, mas, enfim, respondeu. A partir daquele dia, o menino começou a guardar todo dinheiro que ganhava até chegar ao valor equiparado a um hora de serviço de seu pai. Depois, o chamou para brincar e foi logo avisando: “não se preocupe com o tempo papai, eu lhe pagarei o valor de uma hora para brincar comigo”. Abrindo uma pequena caixa, na qual havia guardado as moedas, entregou o dinheiro ao pai, que, já em lágrimas, pediu que explicasse como o havia conseguido.

O garoto explicou que estava juntado todo o dinheiro que ganhou por várias semanas, inclusive o doado pelo próprio pai. Não sei se a história é real, mas fico imaginando como ficou o coração daquele homem e qual foi atitude dele a partir daquele dia.

Na Carta Encíclica Laborem exercens, São João Paulo II esclarece que o trabalho é uma das características que distinguem o homem do resto das criaturas, pois somente ele tem a capacidade para realizá-lo, preenchendo, ao mesmo tempo, a sua existência sobre a Terra. Este é o meio pelo qual o homem deve procurar o pão cotidiano, ou seja, o trabalho é sinal de bênção e merece ser valorizado.

Todos nós sabemos que é graças ao empenho e dedicação de tantos homens e mulheres trabalhadores, ao longo dos tempos, que, hoje, temos condições de vida bem melhores do que nossos antepassados. O que não nos convém é permitirmos que a cultura do consumismo nos domine e nos leve a fazer de nossa atividade profissional o centro de nossa vida.

Acredito que seja oportuno, hoje, pensar a respeito do lugar que o trabalho tem ocupado em sua vida e quais são os frutos que ele tem lhe proporcionado. Considerando que vai permanecer, no fim de tudo, o amor que damos e recebemos, não tenhamos medo de fazer escolhas que irão nos proporcionar viver bem para trabalhar melhor, deixando nossa marca de sucesso não apenas no mercado, mas, principalmente, no coração que Deus lhe confiar, por onde passar, inclusive dentro de sua própria casa.

Dijanira Silva
 
 
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